Desde 2005, a Quarta Parede dedica-se também à criação. A sua primeira criação foi “Stracciatella”, seguindo-se em 2006 a criação de “Lar Doce Lar”, em 2007 “Os fios que a lã tece” e em 2008 “A Disputa” de Marivaux.
STRACCIATELLA > criação 1
Stracciatella surge de uma deambulação pelo quotidiano em busca de memórias.
Daqui surgiram as nossas estórias simples, sem princípio nem fim, sem sentido nem pretensão.
Estórias – Fragmento – Estórias – Perfume – Estórias – Sabor – Estórias – Som – Estórias – Imagem – Estórias que não se escrevem, não se contam, passam sem ninguém dar por elas ou são encontradas por um acaso com sentidos atentos.
As estórias simples não se compõem apenas de palavras. São tão breves quanto fugazes. Ausentes de tempo. Não se deixam apanhar pelos vocábulos. Nómadas, viajam por lugares que a linguagem dificilmente consegue percorrer. Não necessitam qualquer continuação. Existem em si. Resistem ao esquecimento e ao desaparecimento. Acontecem.
As estórias simples podem acontecer a qualquer pessoa. Surgem pelo acaso. Não existem exemplos de estórias simples. Cada uma é única. Só após o acontecimento de uma estória simples pode alguém distinguir esta de outra qualquer espécie de histórias. A maioria das estórias simples acontece sem que ninguém dê por elas. As estórias simples se não forem identificadas por alguém como tal não sofrem nenhum tipo de dano ou abalo na sua existência.
As estórias simples têm finais felizes e tristes ou não acabam, permanecem simplesmente.
Stracciatella constitui-se como uma amálgama de estórias simples que visa presentear as memórias de alguém à memória de todos.
Partindo da memória fragmentária das nossas percepções e de todo um espólio de imagens, palavras, objectos e sons, construímos Stracciatella. Olhamos para as estórias e imagens como reservatórios naturais da memória em constante mutação, partindo das memórias alheias reinventamos todo um universo de acção constituído por scrips de performances, projecções e instalações visuais e sonoras. Todo um trabalho de corte, recorte e costura levou a que os acontecimentos reais se tornassem ficções – estórias embrenham-se em imagens, imagens rasgam-se em estórias, objectos substituem palavras, palavras transformam-se em paisagens.
Como se presentificam as memórias? Será possível aos corpos, palavras, imagens, objectos e sonoridades? Stracciatella procura a corporalidade das memórias – corpo de experiências revisitadas – da qual o próprio visitante é parte inerente, Habitantes e Visitantes são o elo de ligação entre o que é memória e o presente.
Num espaço híbrido [lugar de visita, confessionário, veículo, sala de espera, vitrina, mostruário, ecrã, reservatório] Habitantes conduzem Visitantes por percursos labirínticos nos quais o tempo e os afectos se enlaçam.
Sílvia Pinto Ferreira
LAR DOCE LAR > criação 2
Neste trabalho o Objecto em si é o protagonista apresentando-se ao espectador como forma viva e interactiva, deixando para o performer a tarefa aliciante de descobrir a sua relação com o objecto e o público.
Lar doce Lar, como work-in-process, realizou três apresentações antes da estreia.
Para acompanhar estas apresentações, em três fases,
reuniu-se um grupo de trabalho que teve a oportunidade de observar de muito perto o desenvolver do processo de trabalho e colaborar connosco oferecendo o seu olhar exterior/de público e ajudando no crescimento do espectáculo.
Em viagem com o espectáculo traz o nosso arquivo. Reservatório e repositório do processo criativo. Uma mala, estômago cheio das ruas por onde andámos, conversas que ouvimos, coisas que adquirimos.
Jeannine Trévidic e Sílvia Pinto Ferreira
OS FIOS QUE A LÃ TECE > criação 3
Ao revisitar todo o processo em que se construiu a realidade de uma região pretendemos, em primeiro lugar estimular as memórias, relembrando as raízes de uma parte significativa da população que vive na região da Serra da Estrela, com especial incidência nos concelhos de Covilhã, Guarda, Gouveia, Manteigas e Seia.
Em segundo lugar que este processo possa servir para “tecer” um futuro diferente partindo destas memórias que tanto marcaram as nossas vidas. É com estes fios que muitas vezes nos desuniram mais do que nos uniram e que são portadores de toda uma memória colectiva e individual, que gostaríamos de tecer outros tecidos que nos afirmassem individual e colectivamente. Este espectáculo é um pequeno contributo que pode conduzir a essa reflexão, a essa união de que a região tanto necessita.
O passado apenas se suspende em memórias, mas não obriga a tecer os mesmos caminhos.”
Rui Sena
A DISPUTA, de Marivaux > criação 4
Notas sobre a encenação:
É com um olhar contemporâneo sobre relações entre os dois sexos que “A disputa” de Marivaux é co-produzida pela Quarta Parede e pelo Teatro das Beiras.
Que olhar contemporâneo é este sobre um texto do séc.XVIII? Que olhar é possível sobre ele no séc.XXI? Foram estas as primeiras perguntas que fiz quando comecei a trabalhar “A disputa”. Os parâmetros seguintes foram explorar um campo que vai da inocência à perversão. Se por um lado o tipo de relações se modificou completamente, qual é a validade da palavra infidelidade num mundo tão tecnológico como é aquele em que vivemos? Quem é inocente e quem é perverso? Em que lugar se posicionam as relações entre homem e mulher? Ainda podemos falar de relações apenas entre os dois sexos, ou os contornos com que hoje nos confrontamos não configuram já uma realidade completamente diferente?
Por isso explorei a vertente em que Hermiane e o Príncipe se encontram numa casa, “um lugar selvagem e solitário”, em que um televisor fornece toda a informação, mas também provoca toda a solidão. É neste lugar onde o voyeur observa mas também é observado, que coloco o público. Afinal todo o espectáculo é construído para voyeurs: Hermiane e o Príncipe vão assistir à experiência instalados num sofá, os criados Carise e Mesrou que constantemente espreitam e manipulam os quatro jovens, e estes que a partir da sua inocência, rapidamente aprendem a manipular e a perverter as situações. Afinal estes quatro jovens não somos todos nós? E não é também o público que vê a casa onde se encontra Hermiane e o Príncipe através do “espreitar” pelo écran ou para o palco? Termino o espectáculo voltando a esse lugar que, parece, ninguém deseja: a casa, esse lugar onde se encontra o Príncipe e Hermiane, esta que com um insistente VAMOS nos transporta para o final do espectáculo, um “vamos” que tem um ponto de partida, mas que essencialmente nos indica muitas saídas. São precisamente esses caminhos em aberto que deixo ao espectador para que o espectáculo não seja apenas a comédia que Marivaux escreveu de um modo surpeendente. É minha convicção que este é um espectáculo que consolida e desenvolve esta insistência do meu trabalho nas artes performativas que ao longo dos últimos anos tem privilegiado a relação do e com o indivíduo, da sua condição humana, afinal o capital mais importante que existe no mundo.
post scriptum: a tradução de Luís Varela foi respeitada na sua essência, apenas se actualizou o diálogo entre os quatro jovens de um “vós” clássico para o “tu” da actualidade.
Rui Sena